sexta-feira, 29 de abril de 2016

O tempo de cada um...


Fonte: Google imagens

A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, 
entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura.

(Lya Luft)

Quando da descoberta de qualquer enfermidade grave, passamos a vivenciar um real estado de luto. Luto esse que se manifesta por uma sequência de sentimentos que nos envolve, nos debilita, nos faz mergulhar em sofrimento para, depois, nos fazer emergir novamente para a vida, prontos para retomar do ponto onde paramos.

Choque, ansiedade, negação, depressão, hostilidade, raiva, adaptação, são sentimentos inquietantes que nos acometem para, ao final, nos levar à aceitação da doença. São emoções alarmantes que mexem profundamente com nosso interior, mas que, embora estejam machucando no fundo da alma, resvalam em todos que nos são próximos, provocando, também neles, sofrimento e sensação de impotência por não poderem fazer nada além de ficar ao nosso lado.

Todos esses conflitos interiores são absolutamente normais, compreensíveis e humanos. Viver o luto, chorar pelo luto, imergir nas próprias dores, fechar-se em si mesmo, retrair-se diante da enfermidade... Tudo isso nada mais são que reações esperadas e comuns a toda raça humana.

Porém, nada pode durar tempo demais. Nenhum desses sentimentos penosos pode permanecer indefinidamente ao nosso lado. Há tempo de dor, tempo de revolta, tempo de não aceitar. Há tempo para tudo, entretanto, todas essas vivências para serem consideradas saudáveis, devem nos levar, inquestionavelmente, à aceitação de nossa nova condição de vida. Cada um a seu tempo, cada um a seu modo, cada um da forma que lhe for mais fácil, mas a aceitação da enfermidade é o fator primordial para que possamos buscar a cura, quando esta for possível e, em casos de doenças incuráveis, buscar a melhor convivência possível com a doença.

Fechar os olhos e negar indefinidamente não é o melhor caminho. Fingir que ela não existe só vai no trazer mais sofrimento e dor. Ignorar sua presença só vai dar-lhe mais poder sobre nós, pois, quando não lhe damos a necessária atenção, negligenciamos tratamentos e ficamos mais vulneráveis.

Por outro lado, também não é saudável voltar toda nossa vida exclusivamente para a doença, não devemos supervalorizá-la, dedicar-lhe todo nosso tempo, esquecer que existe vida após o diagnóstico, uma vez que a  vida não para pra que possamos viver exclusivamente para a nossa enfermidade. A vida continua, as pessoas continuam. Apesar de parecer que o mundo desabou sobre nossas cabeças, o mundo não vai estancar para que possamos recolher nossos escombros.

Agora, falando por mim, eu vivi, sim, o choque, a ansiedade, o medo, a revolta... Vivi tudo simultaneamente, intensamente, mas a adaptação veio e, com ela, a aceitação, pois descobri, e isso me trouxe certa paz de espírito, que esta seria a melhor forma de evitar me tornar escrava da Esclerose Múltipla. 

Não a tornei o foco da minha vida e dispenso a ela a exata parcela da minha atenção que ela demanda, nem mais, nem menos. Assim, tenho conseguido uma convivência relativamente pacífica com ela. Ela recebe de mim o que demanda e, em troca, me deixa continuar fazendo parte do mundo com meus sonhos, minhas ideias e minha intensa vontade de viver.

Mas o meu tempo não é o mesmo tempo das demais pessoas. Então eu não posso simplesmente cobrar de ninguém que aceite a EM da mesma forma que aceitei, tenho de respeitar cada um e estender minhas mãos, oferecer meu colo e meu apoio incondicional, pois a aceitação vem naturalmente quando somos compreendidos, acolhidos e respeitados nas nossas dores, medos e angústias.


Bete Tezine


3 comentários:

  1. Perfeito o reconhecimento do tempo de cada um e como este tempo é importante de ser encontrado e vivenciado por cada um. Parabéns

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  2. Você viveu cada etapa referente ao diagnóstico de uma doença limitante, que requer atenção e consciência do seu processo.
    Bete Tezine você é uma mulher admirável, mesmo passando por todas as etapas desde o momento do diagnóstico, sua ansiedade, medo do que estaria porvir, nos seus momentos de revolta....mas você optou dar a volta por cima, não permitindo se colocar numa situação de vítima, se revoltando com tudo e com todos e hoje é uma pessoa que dá seu apoio, seu amor, seu colo, consegue respeitar o limite do outro não sendo uma pessoa invasiva, apenas dando o que tem de mais precioso que é seu apoio, carinho e amor incondicional!!!!
    Parabéns Bete continue assim com essa garra e caso você me permita, gostaria de poder compartilhar essa história de amor e fé, pois sei que através do seu depoimento, você estará ajudando muiiiiita gente!
    Um grande beijo repleto de carinho e respeito !😘🙏🏼

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    1. Olá Angela, tudo bem?
      Primeiramente, quero lhe agradecer pela visita ao Blog para, em seguida, lhe agradecer, de coração, por suas palavras dirigidas a mim. Respeitar o tempo de cada um é algo que deveria ser regra de convivência, no entanto, isso não acontece sempre, infelizmente, mas, saber que tenho feito a minha parte é o que me move a querer, cada dia mais, ser útil, no real sentido do termo.
      Quanto a compartilhar o que escrevi, esteja a vontade, pois será uma honra para mim.
      Beijos!

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