quarta-feira, 20 de abril de 2016

Qual sua dor?


Roots, 1943 por Frida Kahlo
Fonte: 
Fonte: fridakahlo.org
Arrisco-me dizer que uma das motivações pra você ler este texto é o desejo de controle. Em uma situação em que a Esclerose múltipla parece muitas vezes ter a bússola para sua trajetória de vida, é inegável que você seja inundado pelo desejo de controle do seu próprio corpo, da sua rotina, do seu bem-estar e da sua saúde. Mas depende somente de você este controle? Para a área da saúde, a falta de compreensão social e cultural em relação a determinadas doenças é dificultador corrente de uma terapêutica adequada. O seu entorno social também influencia na maneira com que você lida com seu corpo e saúde.

Vamos imaginar a seguinte situação: é um dia de trabalho, você acordou, sentiu um pouco de tontura, suas pernas estavam um tanto quanto doloridas, apesar de ter ido dormir bem. Você precisa levantar, porque afinal precisa chegar no horário em seu trabalho, que aliás não tem uma cadeira ou mesa realmente confortáveis. No trabalho, suas costas não ficam bem posicionadas, suas pernas ficam na mesma posição por horas, você precisa olhar para a tela do computador por uma manhã inteira e, quando olha a seu redor, apenas por muita sorte você encontrará alguém que compreenda o quão difícil é aquela situação. Apesar do cansaço físico e a necessidade de se permitir pausas serem comuns às pessoas com Esclerose Múltipla, quem, em uma rotina exaustiva, realmente se permite pausar? É o medo da incompreensão do chefe ou da equipe de trabalho, é o medo das estigmatizações e preconceitos, o medo de acharem que você não é capaz para aquela tarefa, o medo de se render aos sintomas e tantos outros motivos possíveis. Com que frequência lhe perguntam "Qual a sua dor hoje?". Dor física, dor emocional, angústias, incertezas etc. São a partir das suas percepções sobre o que lhe aflige que o melhor tratamento poderá ser construído. Espero que seu entorno social seja melhor do que os relatos costumam apresentar, mas saiba que quem realmente sabe das suas limitações e potenciais não é ninguém mais que você mesmo.

Comecei o texto escrevendo que nosso entorno social influencia muito na maneira como conduzimos nossa rotina, certo? Pensando nisto, eu deixo uma sugestão para sua semana. Se quando eu perguntei "Qual sua dor hoje" você pensou em algo como "eu não me alimentei tão bem" ou "eu sinto que não estou me alimentando como meu corpo está pedindo", então esta sugestão pode ser especialmente para você. Pense comigo: quantas refeições costumo fazer no dia? Destas refeições, quais eu realizo de pé/caminhando/dirigindo e quais eu realizo em uma mesa (pense mesmo que aconteça de forma não regular)? As refeições que você já faz em uma mesa (sentado, sem papéis extras ao redor) mantenha. Mantendo-as, escolha 1 refeição, daquelas que você ainda faz de uma maneira um pouco mais desatenta, e passe a realizá-la sentado em uma mesa, preferencialmente com uma toalhinha de cozinha [;)]. Pode ser que lhe seja útil este hábito. 

As refeições são momentos de descanso importantes, que envolvem saúde mental e saúde física. Você acha que vale experimentar?

Fernanda Sabatini
Nutricionista


2 comentários:

  1. Parabéns Fernanda.

    Este texto se encaixa na minha rotina diaria. Pelo menos 8 horas sentada na frente de um computador e demais atividades que parecem já estarem no piloto automático.
    Sem uma pausa, um tempo de descanso fisico e mental pleno.

    Ter estes momentos de descanso é essencial para vivermos bem. Aprecio quem consegue ter o controle de sua vida e vive plenamente.

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    1. Olá, Célia! Muito obrigada pelo seu comentário! A busca por uma rotina mais saudável não depende somente de nós, não é mesmo? Há todo um contexto de relações e compromissos que afetam as nossas escolhas e forma de viver. Saber o ritmo de vida que queremos para nós é um ponto realmente importante para o construírmos. Contudo, sabendo que a construção é um processo, momentos que não se encaixam com o que consideramos saudável é normal. A rotina pode ser assim encarada sem culpa, caso em algum momento fuja de nosso controle. Que você tenha uma semana acolhedora!

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