quinta-feira, 12 de maio de 2016

Máscaras caindo...


Fonte: Google imagens

Meu relacionamento com a Esclerose Múltipla iniciou-se, hoje sei, muitos anos antes de eu saber quem ela era. Sentia sua presença, é bem verdade, mas não podia dar-lhe nome, forma ou delimitar seus contornos.

Inicialmente, ela esgueirou-se junto a mim, sem fazer qualquer ruído. Rastejou, camuflou-se, disfarçou-se em outras anomalias, tudo a fim de fixar sua presença ao meu lado, sem que eu pudesse notá-la.

De início, ela resolveu mexer com minha cabeça, fez com que ela ficasse zonza, no ar, como se tudo flutuasse ao meu redor, o chão ficava longe, perto, longe, perto, longe, perto.... Foi confundida, então, com labirintite. Esse foi o seu primeiro disfarce. Ela o usou por diversas vezes, uma vez percebeu que tinha conseguido com ele se manter incógnita.

Depois, quando notou que já estava levantando suspeitas, fantasiou-se de uma doença ocular. Instalou-se no meu olho direito e, com uma agulha qualquer, brincava de perfurar minha retina. Quanto sofrimento ela me causou nessa época. Investigaram meus olhos, puseram holofotes, fotografaram, escanearam, de tudo fizeram, mas, ardilosa como é, quando viu que corria o risco de ser desmascarada, deu logo um jeito de sair de fininho, deixando meu olho dolorido, mas a tempo de ser salvo das sequelas que ela tentou deixar.

Assim, abandou também esse disfarce e partiu para um novo ataque, resolvendo que atuaria, agora, camuflada em uma doença circulatória. Nossa! Quanta dor me provocou. Quantas vezes deixei de andar por não suportar o que ela fazia com minhas pernas. Mas, quando procurei ajuda médica, me examinaram e nada encontraram que pudesse me causar todas aquelas dores.

Desse modo, ao ver que também não tinha conseguido atribuir a outra enfermidade a responsabilidade pelo que estava me causando, buscou outra forma de se aconchegar ao meu lado e resolveu, então, que andaria dependurada em mim, ou agarrada às minhas pernas, misturando-se comigo para que, quem olhasse de fora, pensasse que éramos apenas uma. 

Ela me fez ficar tão exausta suportando o seu peso que minhas forças se esvaíram e eu não conseguia mais realizar minhas atividades diárias. Esse foi o seu pior e mais maldoso disfarce, pois, ao se fundir comigo, fez com que eu fosse tida como uma pessoa com  "síndrome da preguiça crônica", uma vez que quando olhavam para mim, como ela não era visível a ninguém, viam apenas eu, ou seja, alguém que visualmente e clinicamente não apresentava nenhuma anomalia que pudesse justificar tamanha falta de energia. Assim, davam-me vitaminas, estimulantes e olhares de censuras.

Sem dúvida nenhuma, esse foi o disfarce que ela usou pela maior quantidade de tempo, possibilitando que não fosse levantada qualquer tipo de suspeita acerca de sua identidade.

Mas, como uma criança birrenta, se cansou do brinquedo e quis ousar um novo disfarce e esse foi o seu grande erro. 

Tenho plena convicção de que ela, para criar sua nova alegoria, me observou fria e atentamente, analisando todo meu corpo pra ver qual seria a melhor forma de continuar anonimamente comigo.

Penso eu que, depois de muito concatenar, percebeu que poderia se aproveitar do fato de que possuo dez pinos e uma placa dentro do tornozelo esquerdo, herança de uma fratura resultante de uma queda anos atrás. Desse modo, primeiramente, adormeceu e aqueceu meu pé. Estranhei, fui ao médico, mas ele caiu na artimanha da minha companheira, atribuindo aos pinos a responsabilidade pelos sintomas.

Ah! Isso para ela foi motivo de festa, pois até que enfim havia conseguido atribuir a outrem o mal que me causava. Assim, empolgou-se de tal forma, que lhe foi impossível ater-se apenas a meu pé, resolvendo subir mais um pouquinho.

Quando acordei no outro dia, minha perna inteira também estava acalorada e adormecida. Voltei mais uma vez ao médico que novamente foi ludibriado por ela, pois continuou atribuindo aos pinos a responsabilidade pelo que eu estava sentindo.

Se ela já havia feito festa anteriormente, agora vibrou, pulou, cantou, dançou, fez de tudo e, na ânsia de querer mais, resolveu que subiria mais um pouquinho. Então, acordei no outro dia com a metade esquerda do tronco aquecida e dormente. Retornei, mais uma vez, ao consultório médico que tentou, ainda, atribuir aos pinos a responsabilidade de tal proeza, fazendo conjecturas a respeito de um nervo que passava pelo tornozelo e irradiava por todo o lado esquerdo do meu corpo, provocando tais sintomas. Porém, além da perda da sensibilidade, comecei a apresentar desequilíbrios, incoordenação motora e dores fortíssimas. 

E esse foi o fim da sua carreira de disfarces e camuflagens para fazer parte da minha vida. Ela foi desmascarada,  pois ao não se contentar com o que tinha, buscou me me causar cada diz mais sofrimentos, o que fez com que eu aos poucos fosse me apercebendo de sua presença, me afastando alguns centímetros da fusão que ela promoveu, tornando-a visível também ao olhar de uma neurologista que a diagnosticou.

Desmascarada ela precisou aceitar que sou eu que a tenho e, na maioria das vezes, quem está no controle sou eu, não ela.


Bete Tezine


2 comentários:

  1. Maravilhoso! Adorei principalmente o último parágrafo. é assim que me sinto também. Vamos em frente, podemos, somos mais fortes. Parabéns!

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