segunda-feira, 9 de maio de 2016

Meus bichos e eu

Fonte: sandersonilustrador.blogspot.com.br

Não sou uma fortaleza de pessoa, que nada abate, que tem um humor que nada faz com que fique triste ou deprimido. Engano, sou como qualquer outra pessoa, sujeito a chuvas e tempestades. Lógico que, pelo tempo que estou nessa situação, fui obrigado a desenvolver todo um mecanismo de defesa contra as minhas variações de humor, que tenho como qualquer um.  Acredito que o pior medo de uma pessoa é o medo de ter medo, até porque, embora o medo não seja a esclerose múltipla, ele tem muitas formas, muitas facetas. Quando eu comecei a enfrentar meus problemas, primeiro como relação ao alcoolismo, depois com o diagnóstico da esclerose múltipla e posteriormente com o diagnóstico do tumor em minha medula, em cada uma dessas etapas enfrentei um medo diferente.

No primeiro caso, o do alcoolismo, o meu medo era o de perder minha família, minha esposa, meus filhos, meu emprego e o respeito das pessoas, este no caso, que eu achava que ainda possuía, quando na verdade já deixara de ter o respeito da maior parte dos meus amigos e vizinhos. A cada passagem minha por alguém na rua, só eu não via e ouvia os comentários que eram feitos.  Graças aos esforços de minha esposa, que me ajudou a encontrar o caminho do AA, consegui estacionar com a bebida e já conto trinta e três anos de, só por hoje não tomei o primeiro gole, vivendo com sobriedade e serenidade.

Quando achei que iria levar uma vida sossegada e aproveitar para usufruir de tudo que poderia ter na vida, começaram minhas crises que levaram ao diagnóstico da esclerose múltipla seis anos depois. Novamente vi-me de frente aos meus bichos, os mesmos que povoavam meus pesadelos de bêbado, uma mistura de sensação de fracasso com uma grande dose de medo, um medo que vinha do fundo da minha consciência.  Quando da bebida minha consciência dizia: você escolheu beber, por isso está nessa situação.  Agora com a esclerose a sensação era: quem mandou você beber? Foi isso que levou a esta doença.  O outro grande medo era como vou ficar, qual será o meu futuro, será que eu terei um?  Eram perguntas sem respostas, era um olhar para os meus filhos e pensar: será que os verei grandes, casados, realizados como pessoas?  Era um olhar para minha esposa e pensar que ela já havia sofrido grandes desilusões com minhas bebedeiras e que agora poderia não ter o marido ao seu lado ou ainda pior, ter que carregá-lo pelo resto da vida. Enchi-me de coragem e tentei afastar de mim todos esses fantasmas, começando então a desenvolver um método que havia aprendido no AA e fui vivendo um dia de cada vez, acordando pela manhã, vendo qual era a minha condição e me adaptando a ela.  Isso começou a surtir efeito, continuei dessa forma e fui aprendendo.

Era final de 1999 e eu estava feliz, pois a casa que eu comprara em 93 e que durante todo este tempo estive reformando, estava quase pronta. Meu primeiro neto só me dava alegrias e minha esposa estava muito feliz como vendedora em uma joalheria, no shopping de Mogi das Cruzes. Eu, aposentado desde 96, as vezes prestava consultoria em Administração de Materiais, antigo nome da Logística. Comecei então a sentir que o meu lado esquerdo do corpo, do pescoço para baixo, ficava às vezes dormente. Foi piorando até que no início de 2000 parei de andar, pois houve o comprometimento de todo corpo. Fiquei cuidando, juntamente com meu médico, Dr. Dagoberto, do surto de esclerose múltipla, de fevereiro até maio, quando foi descoberto, através de uma ressonância magnética da cervical, um tumor na medula de 12 cm, indo da C2 até a C7. Passei então por uma cirurgia de doze horas de duração, realizada no dia 5 de junho de 2000, sendo que retornei para casa no dia 12 de junho (meu presente de dia dos namorados para minha esposa, eu).

Voltei para casa e para meus bichos, tanto para meus cães, como para os da consciência. Será que voltarei a andar; quando minha sensibilidade vai voltar, quais serão as sequelas? Muitas perguntas, poucas respostas. Começava ali minha forte ligação com vários anjos, os fisioterapeutas. Tornei-me e sou fã até hoje desse tratamento, em todas suas especialidades, bobath, kabatt, acupuntura e outras mais. Novamente entendi que meus maiores aliados seriam minha família, o tempo, dedicação ao tratamento e aí descobrimos, eu e minha esposa, que passar a dividir nossas experiências com outros pacientes poderia também ajudar na recuperação. Para encurtar esta narrativa, isso foi o início do GATEM, Grupo do Alto Tietê de Esclerose Múltipla, começo de nossa caminhada no Terceiro Setor e de uma nova e gratificante etapa em nossas vidas.

Não deixei nunca de ter meus bichos. Em 2002 sofri uma queda e fraturei a terceira vértebra. Operei, tive uma parada cardíaca e voltei; em 2007 tive uma TVP, trombose vascular profunda, um mês de repouso absoluto; em 2011 passei por uma cirurgia na bexiga, contrai uma infecção hospitalar, tive a segunda parada cardíaca e fiquei quase um mês internado. Agora, na última semana santa, fraturei meu braço esquerdo.
Ah, o zoológico vai muito bem. Tem macacos, antas, minhocas, bicho preguiça e por enquanto nenhuma zebra.


Bom mês de maio (de maio, não desmaio) e até junho, com o gostinho do frio. Brrrr.


Wilson Gomiero
Ativista social


6 comentários:

  1. Parabéns por compartilhar a sua história......O sr aprendeu, ao longo dos seus anos e obstáculos, a enfrentar de frente, os seus medos.... Agradeço por citar os Fisioterapeutas como seus anjos!!!!!!

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  2. Obrigada mais uma vez queridos amigos. Tinha esquecido do começo, 2000. Quantos bichos temos enfrentado!Zoológico do bem, fé para seguir.

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  3. O senhor é maravilhoso! Minha gde inspiração de força. Amei o texto. (E os meus bichos tb!)

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  4. Wilson, você me lembra o meu pai. Grande guerreiro!! Muito maior que eu, na verdade! Mas, seu humor é mais leve e menos ácido que o dele!! Sou sua fã e DA DINHA!! COM CTZA!

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  5. Sr Wilson, me emocionei com todo esse relato. O senhor é que veio à esse mundo pra substituir os anjos quando se ausentam.... Que a gente aprenda essa lição com o senhor e seus bichos!!! Amei o texto....

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  6. Muito bom conhecer sua história, quero ser forte igual você !

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