segunda-feira, 6 de junho de 2016

Eu não estou sofrendo, estou lutando!


Imagem de uma cena do filme Para Sempre AliceFonte: Google imagens
"Eu não estou sofrendo, estou lutando!"

(Fala da personagem Alice no filme Para sempre Alice)


Têm dias que parece que a luta contra a Esclerose Múltipla será uma batalha perdida. Falta energia, as dores são devastadoras, o corpo não responde aos comandos, a mente não responde aos comandos. A impressão que se tem é de que não vamos dar conta do que estamos carregando e, comigo, não é diferente.

Mas, felizmente, esses dias passam, a falta de fé em minha própria força vai embora e minha capacidade de luta volta à tona, me fazendo emergir com energia suficiente para não me entregar aos desmandos da minha companheira de vida.

Outro dia, assistindo ao filme Para sempre Alice, pela primeira vez, pois me faltava coragem para encarar o que o alzheimer faz com a mente de uma pessoa (para quem não sabe, minha mãe foi diagnosticada com a patologia há pouco mais menos de 2 anos). No filme, a personagem Alice, uma renomada professora de linguística, por uma alteração genética desenvolve a doença precocemente e, afastada do trabalho, com a memória já bastante deteriorada, profere um discurso em uma Associação de Alzheimer com o qual me  identifiquei profundamente, mas, de tudo, o que mais me chamou a atenção foi a frase "eu não estou sofrendo, estou lutando!".

"Eu não estou sofrendo, eu estou lutando" são palavras que demonstram, com uma propriedade imensurável, o que tenho vivido durante boa parte da minha vida, mesmo quando eu lutava sem saber quem era meu oponente, mesmo quando meus olhos ficam marejados de lágrimas de tanta dor, mesmo quando os surtos me fazem enfraquecer, mesmo quando a fadiga me extenua por completo, mesmo quando eu deixo de acreditar na minha própria força... Ainda assim, eu não estou sofrendo, estou apenas lutando... lutando para permanecer de pé, lutando para não me entregar, lutando para seguir em frente com a minha vida, lutando para não sentir pena de mim mesma.

Minha vida mudou muito e, sendo bem sincera comigo mesma, mudou para melhor, pois me fizeram crescer como ser humano, me reposicionaram em vários aspectos que pareciam ter se perdido de mim. Hoje, posso dizer, sem medo, que subi alguns degraus na escada da evolução pessoal que cada um de nós tem de galgar durante a existência. A doença me fez repensar tantas coisas, me fez enxergar detalhes que antes me eram praticamente imperceptíveis, me fez realizar alguns sonhos esquecidos no tempo. "Eu não estou sofrendo, estou lutando!".

Shakespeare, num dos textos mais brilhantes que já li, escreveu que "não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não para para que você o conserte", portanto, a vida prossegue, ela não estanca depois que a Esclerose Múltipla passa a fazer parte da nossa existência. O mundo não para de girar, o relógio não estaciona em uma hora qualquer, o tempo não deixa de passar. A Esclerose Múltipla pode paralisar, fazer com que paremos de olhar para tudo que está ao nosso redor e passemos a olhar apenas para nós mesmos, o que pode ser algo bom por um lado, pois começamos a nos dar certas prioridades, mas, se ficarmos apenas assoprando nossas próprias feridas, mergulhados em autocomiseração, esquecemos que do lado de fora da nossa redoma toda uma vida nos espera, com seus desafios, perdas e vitórias, pois mesmo que tenhamos de remodelar a nossa existência, reinventar nossos sonhos, aprender e reaprender tantas coisas, ainda seremos capazes de produzir, de sonhar, de viver, de triunfar... 

Eu não sinto dó de mim, eu não me faço de vítima, eu vou à luta todos os dias quando levanto e encaro de frente cada sintoma que teima em me tiranizar. Eu vou à luta quando, mesmo com a fadiga em nível mega master, não deixo de realizar as coisas que são essenciais para mim. Eu não fujo da batalha, mesmo quando sabendo que vou acordar com mais dores do que quando fui dormir,  não deixo de autoaplicar o Rebif. Eu estou lutando todos os dias mesmo que aos olhos daqueles que só enxergam o que querem ver, pareça que é se vitimizar quando assumimos que estamos num momento difícil.


"Eu não estou sofrendo, estou lutando!"


Bete Tezine


5 comentários:

  1. Me identifiquei muito com o texto. Parabéns por conseguir colocar em palavras o que se sente na vida com EM.

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  2. É exatamente assim que me sinto, me vivo e que convivo com a EM. Poucas pessoas sabem do meu diagnostico, pois evito que tenham dó ou pena de mim. Sou forte, e tb me supero a cada dia, cada crise de fadiga, a cada rebif. A EM não me tem de jeito nenhum, nunca a deixarei me dominar: NUNCA!

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  3. Temos que lutar todos os dias para ter o atendimento que podemos escolher a maneira melhor do tratamento e ter os exames que necessitamos sem dificuldade assim como todo o acompanhamento necessário.

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  4. Recebi meu diagnóstico de EM 20 dias após essa sua postagem. Recentemente, assisti a esse filme e me identifiquei muito com Alice, chegando a colocar as perguntas q ela se fazia salvas no meu smartphone para lembrar dela, para lembrar q tbm posso e devo lutar todo dia. Mesmo com a fadiga q me assola todo dia, ainda busco forças para fazer coisas q ñ fazia quando estava bem.
    Agradeço a vc, Bete, e outras pessoas q compartilham sua luta, servindo de exemplo para todos nós.
    Não estamos sofrendo, estamos lutando!

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  5. Temos que ser fortes e pensar sempre que o dia de amanhã será melhor que o de hoje !!! abraços de um portador E.M. desde 2000 ,estamos na LUTA.........
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