terça-feira, 21 de junho de 2016

Manifesto contra a ditadura da felicidade


Fonte: http://assimcomoarvore.blogspot.com.br/2013/01/ditadura-da-felicidade-o-que-ha-de.html

Constituição Federal/1988:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença 


Há tempos, tenho andado incomodada com a imposição da felicidade constante. Ser alegre virou ditadura em todos os níveis. Cobram-nos que sejamos pessoas fortes o suficiente para superar, com um sorriso nos lábios, quaisquer obstáculos. Temos de demonstrar força e capacidade de superação muito aquéns da condição humana. 

Ficar triste, sofrer, imergir em lágrimas ou mesmo em lamúrias, vez ou outra, pelos mais diversos motivos, faz parte da nossa conformação psicológica. Meus motivos de angústias podem não ser os mesmos que os seus, mas a nós só cabe respeitar as razões uns dos outros e não tachar quem não tem a mesma visão dos fatos de pessimista, fraco, depressivo ou algo do gênero. Lágrimas jamais foram sinônimo de fraqueza, o que existe, principalmente nos dias atuais, quando as vidas ficam expostas nas redes sociais, é que, na tentativa de não destoar dos que pregam que se tem de ser forte, sorridente e feliz o tempo inteiro, muitas vezes oculta-se a dor e veste-se uma máscara de falso contentamento.

Desse modo, venho a público para manifestar minha discordância contra a tirania da felicidade e, para tanto, requisito que sejam resguardados os seguintes direitos a mim conferidos pela Constituição Federal do Brasil, de 5 de outubro de 1988, em seu artigo 5º, caput, e incisos IV e IX:

1) Sou livre para expressar meus sentimentos, sejam eles alegres ou tristes, porque não há um ser humano sequer que não viva momentos de dor, solidão, frustração, decepção, desilusão, angústia, medo e incerteza.

2) Tenho liberdade para externar meus momentos difíceis sem ser considerada uma pessoa depressiva, beirando ao suicídio, mesmo porque a liberação das angústias libera também a dor do coração.

3) Tenho direito a chorar, berrar, gritar, espernear, quando eu bem entender  e pelos motivos que são meus e que não cabe a ninguém julgar.

4) Tenho direito à liberdade de expressão artística para que possa materializar em minhas obras, tanto minhas alegrias, quanto minhas deficiências, sem que a mim seja imputado transtorno bipolar artístico.

5) Preciso, também, que me seja assegurado o direito de ter esperança, mas que, em um dia escuro, eu possa sentir desesperança sem que me considerem pessimista.

6) Requisito o direito de, quando me sentir cansada, poder sentar para descansar sem que achem que estou desistindo da caminhada.

7) É meu direito, também,  poder exprimir meu descontentamento com a minha condição de esclerosada nos dias em que a doença estiver mais latente e tiranizando meu corpo.

8) Quero o direito de expressar meu desagrado quanto aos efeitos colaterais das medicações sem que precise ouvir que deveria era agradecer a existência deles, pois disso eu sei, porém isso não me impede de preferir que eles fizessem os mesmos efeitos sem me causar tantas reações

9) Sou livre para manifestar que alguns dos sintomas da Esclerose Múltipla são difíceis de tolerar sem precisar escutar que existem doenças bem piores, uma vez que é óbvio que tenho plena consciência deste fato, porém a minha dor quem sente sou eu e, a dor alheia, por mais que eu possa ser solidária a ela, não é a minha dor, é a dor dos outros e cada um tem o direito de viver a própria dor.

10) Quero, ainda,  me resguardar o direito de dizer que tenho medo da EM sem ouvir que não devo dar tanta importância a ela, pois bem sei que se eu tentar ignorar sua presença, estarei negligenciando os cuidados que preciso para que ela não possua a mim, mas sim, eu a ela.

Diante de todo o exposto e pelos direitos e motivos acima elencados, subscrevo este manifesto.


Bete Tezine 


3 comentários:

  1. Simplesmente perfeito!
    Obrigada por compartilhar a sua verdade com coragem e sensibilidade, e por me fazer sentir neste exato momento que não estou só...

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  2. Muito bom ler esse texto, pq ás vezes canso de ser otimista, de ver o lado bom das coisas, as vezes canso de dizer que estou bem, que a fisio tá ótima, quando na verdade parece que passei a noite em pé e saí da fisio demolida :) e ODEIO quando alguém me diz que o irmão do primo do vizinho do meu cunhado tem EM e é atleta de pentatlo.

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  3. Desde que te ouvi, senti que não estava só. Que você entendia meu sofrimento, sabe bem como é difícil. Eu agradeço por isso, por estar ajudando tanta gente com seu trabalho. Muito obrigada!

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