terça-feira, 5 de julho de 2016

Vamos fazer arte?





Temos a arte para não morrer da verdade,

(Nietzsche)

A arte é a expressão mais antiga do ser humano. Pela arte se conta a história da humanidade, pois, quando o homem primitivo estampou sua mão em negativo nas cavernas e representou cenas do seu cotidiano, ele nada mais fez que deixar para as gerações futuras a sua história registrada. 

A arte evolui junto com o homem, fazendo escola, enveredando por linguagens e técnicas tão diversificadas quanto as emoções humanas. 

A arte é o maior retrato dos sentimentos daquele que a produz. O artista se personifica em suas obras. 

E assim, justamente por ser tão expressiva, denotando o interior daqueles que se propõem a sua produção, a arte passou a ser, também, instrumento de cura. Surgiu a arteterapia, ou terapia pela arte, ou a arte que cura.

Diante disso, podemos definir arteterapia como sendo a arte utilizada em um processo terapêutico. 

E o que é arte?

A definição do que seja arte varia de acordo com o tempo e as diversas culturas humanas. Muitos autores a conceituaram no decorrer da história, dando-lhe diversos significados. Para Platão a arte era o esplendor do verdadeiro. Aristóteles a definiu como sendo a ordem e a harmonia das partes. Porém, é em Nietzsche que encontramos a definição que melhor se molda ao recurso da arte como cura, "temos a arte para não morrer da verdade".

Será que a verdade mata? Será que enxergar a realidade sem o filtro do véu da "ignorância" pode nos levar à morte? Será que podemos nos entregar à falência de nós mesmos quando temos descortinada a mais absoluta e pura verdade dos fatos?

Depende. Depende muito da bagagem emocional que fomos acumulando durante a vida. Podemos nos agigantar diante daquela verdade que nos desembaça os olhos por meio de um choque de alta voltagem, ou, podemos nos entregar à introspecção de emoções que não afloram, ficando guardadas lá dentro, em um canto escuro, crescendo feito o bolor que toma conta dos objetos umidificados pelo desuso. Porém, esta escolha não é uma tarefa simples e que depende, tão somente, do nosso querer. Muitas vezes, nem nós sabemos o tamanho da ferida que está sendo irrigada, dia a dia, com o sangue de dores não personificadas, da falta de aceitação da realidade que se abriu, com um luto que não cessa... É nessa hora que precisamos de ajuda. Ajuda para podermos engolir o que está entalado na garganta, que nem desce para ser digerido, nem é "vomitado" para aliviar o desconforto que está prestes a nos matar engasgados. 

Muitas vezes, nossos gestos dizem muito mais que nossas palavras, uma vez que temos o hábito, para não dizer defeito, de subestimar nossas emoções, sobremaneira as que nos tornam vulneráveis diante de fatos que, ao nosso olhar contaminado pela falta de aceitação, deveria ser algo bem mais simples de lidar, pois afinal, a sociedade nos cobra uma força muito além da capacidade humana de lidar com perdas e enfermidades.

É ai que a arte pode nos ajudar a expor os grãos de areia que estão dilacerando a ferida aberta em nosso interior. A arte nos ajuda a extenuar emoções sufocadas, desconfortos com as situações das quais não temos controle, angústias diversificadas, dores do corpo e da alma. O fazer artístico já nasce impregnado pelos nossos traços. É como um autorretrato da nossa personalidade, um rx do que se passa em nosso íntimo.

E todos, do seu jeito, podem, conseguem, têm habilidade para  fazer arte. Nem todos se tornarão um Monet, um Vik Muniz, um Sebastião Salgado, um Paulo Autran, uma Fernanda Montenegro... mas, cada um de nós, temos intrínsecos em nossa personalidade o fazer artístico, temos a capacidade de expor nossas interioridades em obras que nos salvam de morrer da verdade. A verdade insana de achar que somos os únicos a vivenciar este ou aquele problema. Não a verdade que salva, mas a verdade que sufoca por não termos a habilidade (não ainda, não sozinhos) de fazer das nossas dores criações que curam. 

A terapia nos ajuda a adquirir essa habilidade e, a arte, nos ajuda a diminuir o tamanho do abismo em que estamos imersos. E, a arterapia, é o instrumento para que isso aconteça.

Vamos fazer arte?



Bete Tezine


Nenhum comentário:

Postar um comentário