quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

E agora, José?


Fonte: blogorama.com

Você já ouviu falar na palavra “biodisponibilidade”? Biodisponibilidade é o termo técnico que se refere, na Ciência da Nutrição, à quantidade (proporção) do nutriente ingerido que atingirá um determinado tecido do seu corpo e agirá fisiologicamente neste tecido.

Muito técnico? Sim. Mas este assunto pode ser uma ferramenta interessante para discutirmos a (in)exatidão das informações que bombardeiam as mídias virtuais e televisivas sobre alimentação e recomendações alimentares. Alguns profissionais chamam, há algum tempo, este bombardeio pelo nome de Nutricionismo, o que parece até a união das palavras Nutrição e Terrorismo. Vejamos o exemplo da vitamina D: você já se perguntou “mas eu tenho que comer vitamina D? Mas eu tenho que tomar suplemento? Mas e se eu não tomar? Posso tomar sol?”?
“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
  a noite esfriou (...)"
("José", Drummond)¹

Certamente, a vitamina D é de extrema importância para o funcionamento correto do corpo, muito comentada e valorizada no tratamento da Esclerose Múltipla. Não vou dizer que é uma das vitaminas mais importantes, porque eu falaria isto de todas as vitaminas, nosso corpo precisa de variedade nas proporções recomendadas. Contudo, é realmente para deixar-nos de queixo caído todas as funções que a vitamina D desempenha em nosso organismo: trabalha no sistema imune, trabalha para manter em níveis adequados no sangue o cálcio e o fósforo, trabalha na formação e reestruturação óssea, trabalha no tecido da pele, além de sua deficiência ser associada por alguns estudos ao risco de desenvolvimento da esclerose múltipla, de alguns tipos de câncer, de diabetes mellitus e de hipertensão arterial, por exemplo.

Com uma ficha corrida dessas, quem não se animará quando algum meio de comunicação informa sobre as maneiras de se aumentar o consumo de vitamina D no dia a dia? Ou mais, quem não se desesperará para aumentar logo o consumo de vitamina D? E, geralmente, a tendência é querer aumentar este consumo a partir de suplementos, que muitas vezes nem foram orientados por um nutricionista ou médico.

Defini, ao início do texto, o termo biodisponibilidade. Ao pensarmos que existe um termo para referir-se à quantidade real do nutriente ou composto alimentar que será utilizada pelo corpo, é porque sabemos que nem tudo o que comemos será realmente utilizado pelo nosso organismo fisiologicamente. Isto ocorre porque há vários fatores que interferem na ação do nutriente. Alguns fatores que influenciam nesta ação são fatores do próprio alimento; ou ainda a composição da refeição que você come, alguns nutrientes competem com outros, assim como alguns ajudam outros; há também influência do seu estado nutricional e do seu estado emocional, por exemplo. Então vejam, quando tenta-se aumentar de forma isolada o consumo de qualquer nutriente específico, desconsidera-se todos os fatores que agem no real uso deste nutriente pelo organismo. Às vezes parece mais prático resolver um problema com a suplementação, contudo nem sempre é o mais eficiente. E mesmo quando é o mais eficiente, é necessário trabalhar o restante da alimentação e do conjunto de fatores que envolvem sua saúde (psicológico, físico, estresse etc) para que você aproveite melhor esse suplemento. Nem sempre os ajustes nutricionais previstos para você são urgentes, e assim é possível trabalhar com mais calma, focando na comida, em suas escolhas alimentares, na sua rotina. Trabalhar sua saúde e suas refeições com um olhar amplo é sempre necessário, em qualquer situação. Obtém-se, assim, um resultado muito mais adequado.
E agora, José?
A festa acabou?
O menino descansou.
O povo sumiu?
A menina se divertiu.
A luz apagou, A noite esfriou?
Os amantes fizeram Amor e
a vizinhança dançou ao som de “O vencedor”.


Fernanda Sabatini
Nutricionista



Referências

1. Andrade, Carlos Drummond. Poesias. Rio de Janeiro: José Olympio; 1942. 







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