segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Esclerose múltipla e treinamento resistido


Fonte: https://goo.gl/XgAFHB

As pessoas com Esclerose Múltipla (EM), por muito tempo, foram conduzidas a reduzir o nível de atividade física. O objetivo desta orientação era poupar energia dos pacientes, evitar o aumento da temperatura corporal, controlar a fadiga e diminuir a exacerbação da doença. O sedentarismo, além de um grande risco para patologias cardíacas, aumenta os distúrbios da EM, como: espasticidade, ataxia, fraqueza muscular, falta de equilíbrio e fadiga. Assim a prescrição de exercícios resistidos funciona como uma estratégia terapêutica eficiente e segura para minimizar a perda da capacidade funcional (PORTO; RASO, 2007; FURTADO; TAVARES, 2005).

Em pacientes com EM ocorre a diminuição da força muscular, que está ligada às alterações do Sistema Nervoso Central (SNC), por conta da desmielinização das fibras nervosas, e ao desuso, por consequência do baixo nível de atividade física que reduz a ativação das fibras musculares de todos os tipos e de suas ações enzimáticas.

O déficit da força muscular causa grande impacto na locomoção e execução das atividades da vida diária (AVD), comprometendo o estilo de vida independente, isto porque a perda ocorre de maneira mais acentuada nos músculos de membros inferiores (MMII) prejudicando a deambulação. (FURTADO; TAVARES, 2007).

A indicação de exercícios físicos não era recomendada, pois acreditava-se que esta prática ao elevar a temperatura corporal poderia aumentar a fadiga e potencializar os sintomas da doença. A partir da década de 80, pesquisas realizadas demonstraram que a prática de exercícios físicos era eficaz e segura para portadores de EM. (FURTADO; TAVARES, 2005).

Com relação ao Treinamento Resistido (TR) é possível citar alguns estudos que mostraram resultados importantes nos pacientes com EM.

Com o objetivo de verificar a melhora na ativação neural com um treinamento de força máxima para portadores de EM, Fimland e cols. (2010) realizaram um estudo randomizado com uma amostra de 14 pacientes portadores de EM e forneceu evidências de que o treinamento de força máxima é eficaz para aumentar a ativação neuromuscular dos MMII, aliviando alguns dos sintomas em pacientes com ligeira à moderada deficiência devido a EM.

Apesar da realização de um programa de TR de curta duração, Debolt e McCubin (2004) puderam notar o impacto dos exercícios na execução das atividades da vida diária, como entrar e sair do carro e sentar e levantar de uma cadeira.

A capacidade funcional de indivíduos com EM é um fator importante, assim Gutierrez e cols. (2005) realizaram um estudo cujo objetivo era avaliar a cinemática da marcha através de um programa de exercícios contra resistência. Esta pesquisa teve duração de oito semanas e tendo como resultado um aumento significativo na força de MMII, consequentemente, melhora na marcha. Dessa forma, concluiu-se que o treinamento contra resistência pode ser eficaz no tratamento de pessoas com EM. White e cols. (2004) corroboram quando perceberam adaptações positivas com o TR e melhora significativa na capacidade funcional dos indivíduos com EM.

A maioria dos pacientes com EM podem exercitar-se seguramente, mesmo sabendo que tal prática promove o aumento da temperatura corporal. Desta forma, sugere-se algumas estratégias para controlar este sintoma: salas climatizadas, realização de exercícios no início da manhã ou no final da tarde, manutenção da hidratação durante a atividade física. (FURTADO; TAVARES, 2006).

Há também a técnica do resfriamento pré-exercício, onde é feita a imersão corporal até a cintura em água fria por 30 minutos. Esta estratégia é utilizada para minimizar os efeitos colaterais associados ao calor e otimizar o conforto físico durante o exercício. (FURTADO; TAVARES, 2005). 
  
Dessa forma, entende-se que o TR pode ser uma ótima ferramenta para busca da manutenção ou desenvolvimento da força muscular, tendo como foco principal minimizar as perdas da capacidade física decorrentes, tanto da EM, como do envelhecimento. Portanto, o desenvolvimento da força muscular é de suma importância para um estilo de vida ativo e autônomo (FURTADO; TAVARES, 2007).

REFERÊNCIAS

DEBOLT, L. S.; MCCUBBIN, J. A. The effect of home-based resistance exercise on balance, power and mobility in adults with multiple sclerosis. International Journal of Sports Medicine, Stuttgart, BW: THIEME, v. 85, n. 2, p. 290-297, feb. 2004.

FIMLAND, M. S. et al. Enhanced neural drive after maximal strength training in multiple sclerosis patients. European Journal of Applied Physiology, Frankfurt, HS: SPRINGER, v. 110, n.2, p. 435-443, sep. 2010.

FURTADO, O. L. P. C.; TAVARES, M. C. G. C. F. Esclerose múltipla e exercício físico. Acta Fisiátrica, São Paulo: HC/FMUSP, v. 12, n. 3, p. 100-106, dez. 2005.

______. Orientação de exercícios físicos para pessoas com esclerose múltipla. Revista Digital, Buenos Aires, v. 11, n. 99, ago. 2006. Disponível em: <http://www.efdeportes.com/efd99/esclero.htm>. Acesso em: 9 out 2011.

______. Proposta de exercícios resistidos para pessoas com esclerose múltipla: um estudo de caso. Acta Fisiátrica, São Paulo: HC/FMUSP, v. 14, n. 2, p. 111-116, jun. 2007.

GUTIERREZ, G. M. et al. Resistance training improves gait kinematics in persons with multiple sclerosis. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, Philadelphia, PA: ELSEVIER, v. 86, n. 9, p. 1824-1829, sep. 2005.

PORTO, R. M.; RASO, V. A importância da atividade física para portadores de esclerose múltipla obesos. Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento, São Paulo: IBPEFEX, v. 1, n. 1, p. 80-89, jan./ fev. 2007.

WHITE, L. J. et al. Resistance training improves strength and functional capacity in persons with multiple sclerosis. Multiple Sclerosis Journal Online, Teller Road, CA: SAGE PUBLICATIONS, v. 6, n. 10, p. 668-674, dec. 2004.

Eliciane Leite 
Educadora Física 
CREF 076979-G/SP


Professora Técnica de Esportes no SESI-SP, CAT Theobaldo de Nigris – Santo André.  
Especialista em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido, na Saúde, na Doença e no Envelhecimento – Universidade de São Paulo (2011). 
Bacharel em Educação Física – Faculdades Integradas de Santo André (2009).


3 comentários:

  1. Tenho minhas dúvidas pois meus músculos enrigessem no frio me impossibilitando até de andar. Então essa imersão em água gelada para mim não funcionaria.

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    1. Olá Isamara!
      O resfriamento por imersão é apenas uma das técnicas utilizadas, poderia ser uma ducha fria ou manter-se em um local climatizado. Mas, como você mesma citou sobre a rigidez muscular no frio, nestas condições as técnicas não são necessárias.

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