quinta-feira, 16 de março de 2017

Comer e Cozinhar, é só começar

Fonte: pleasureofeating.com

Como profissional da Nutrição, considero gratificante a valorização do comer. A alimentação é vista cada vez mais como ferramenta indispensável para uma vida saudável, e realmente é. Manter uma alimentação saudável, contudo, pode ser bem mais fácil do que muitas vezes é divulgado.

Neste post, falaremos um pouco sobre o que comemos. Quais comidas/preparações você acredita ser saudável? Independentemente da sua resposta, sugiro que leia o Guia Alimentar para a População Brasileira.1 Foi publicado pelo Ministério da Saúde em parceria com profissionais da área. Atualmente, nosso Guia é referência para a formulação de Guias Alimentares de muitos outros países e é destinado à população como um todo. A melhor forma considerada atualmente para você saber se está comendo algo saudável é pensar no caminho que este alimento percorreu até chegar em seu prato. Quanto mais próximo seu alimento estiver da colheita, pesca ou abate, melhor será a qualidade deste alimento, pois mais nutrientes, menos aditivos e mais riqueza cultural e de sabor terá. O que você acha que está mais próximo da natureza: o peixe comprado na feira ou o steak de frango no setor de congelados? O steak de frango, por sinal, provavelmente tenha bem pouco frango.  Entre 2002-2003 e 2008-2009, houve aumento no consumo de produtos ultraprocessados de 20,8% para 25,4%, e isto ocorreu em todos as classes de renda.2 Os ultraprocessados são reconhecidos como formulações industriais, pois são feitos de substâncias extraídas de alimentos (ex.: óleos e açúcar), derivadas de constituintes de alimentos (ex.: gorduras hidrogenadas e amido modificado) e ainda substâncias completamente sintetizadas em laboratório com base em matérias como petróleo e carvão (ex.: corantes), não sendo proveniente do alimento original. O steak de frango é um exemplo de produto ultraprocessado.  O consumo aumentado destes produtos é compreendido atualmente como grande promotor de doenças como o câncer, diabetes e doenças cardiovasculares, além disso sua produção é ambientalmente e culturalmente desvantajosa para a humanidade.

Mas como nos distanciarmos dos produtos e nos aproximarmos da comida (já que tudo parece ser vendido como a mesma coisa)? Uma resposta bacana pode ser: Comendo mais alimentos que você preparou (descascou, limpou, cozinhou, temperou) e menos alimentos que você desembalou. O ato de cozinhar é carregado de história e simbolismo, percorrendo não somente o mundo da culinária, mas certamente o mundo político e social também. O cozinhar deveria ser uma prática mais constante em nossa cultura, pois é a partir do cozinhar que temos a experiência de comer comida de verdade (próximas da colheita/pesca/abate). Esta experiência é necessária para nosso desenvolvimento biológico, social, psicológico e cognitivo, visto que proporciona-nos acesso a diferentes e indispensáveis nutrientes, sabores, aromas e texturas, além de  acesso a novas culturas, conhecimentos e amizades.

Cozinhar exige prioridade. Enquanto encararmos o cozinhar como um ato secundário e dispensável, não teremos tempo ou vontade para esta prática. Cozinhar não é uma prática da mulher, tão pouco da mãe, é uma prática de quem cuida (de si e do outro). O cozinhar é uma prática importante, assim como o banho e o sono. Você não precisa ter uma cozinha gourmet e ingredientes free glúten e free lactose para cozinhar de maneira que lhe traga saúde. Caso não possa cozinhar todos os dias, escolha um dia da semana para esta prática, congele e coma nos outros dias, por exemplo. Cozinhe de maneira simples, com temperos naturais e, sempre que puder, cozinhe com sua esposa, marido, filhos, mãe, pai. Ensine para seus filhos e filhas o passo a passo para fazer um feijão, deixe-os mexer na carne, no bolo, picar o legumes, entender o preço dos alimentos. Em pouco tempo, você sentirá diferenças importantes em seu convívio familiar, além de em seu sistema imunológico, sua disposição, saciedade e sensações como fome e prazer. 

Independentemente se você já cozinha, considera que odeia cozinhar ou esteja disposto a tentar, conte aqui sua experiência. Afinal, cozinhar é só uma questão de começar.

Fernanda Sabatini
Nutricionista


Referências

1. Brasil. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2 ed. 2014. Disponível em <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf>

2. Martins APB, Levy RB, Claro RM, Moubarac JC, Monteiro CA. Participação crescente de produtos ultraprocessados na dieta brasileira (1987-2009). Rev Saúde Pública 2013;47(4):656-65


Um comentário:

  1. Sobre experiências sobre cozinhar... tenho envolvido meus filhos de 10 e 4 anos na cozinha há 1 ano. Tornou-se uma diversão e um momento de carinho eles aprendem, se desenvolvem, e se nutrem de amor e bons alimentos... Que fazem os juntos.... é uma prática que super recomendo.

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