terça-feira, 16 de maio de 2017

Meu corpo


Fonte: Fernando Vicente, Madame Courbet, acrílico sobre a tela, 60x60cm.


"Meu corpo não é meu corpo,
é ilusão de outro ser.
Sabe a arte de esconder-me
e é de tal modo sagaz
 que a mim de mim ele oculta.
(...)
Meu corpo apaga a lembrança que eu tinha de minha mente.
Inocula-me seu patos,
me ataca, fere e condena
por crimes não cometidos"

(As contradições do corpo, Carlos Drummond de Andrade)

            
O corpo conta uma história. O corpo carrega em si as marcas de uma história. O seu corpo é sua história. A sociedade confere ao corpo valores morais, códigos de boas maneiras. O corpo que não expõe os valores de uma época (magro, esbelto, leve, ereto, ágil, sensual...), expõe na verdade o ser que ali habita ao escárnio, repressão, estigmatização, exclusão. Assim iniciam-se as lutas incansáveis pela padronização do corpo. Lutas em que geralmente não é o corpo o grande vencedor. É mesmo uma coerção. Corpo obediente é corpo útil, a uma minoria economicamente influente. A saúde fisiológica e anatômica não deve estar (e não está) fragmentada da saúde social e psicológica. O corpo não é só matéria biológica, o corpo é um corpo social e cultural. Relação saudável com o corpo é aquela na qual a individualidade deste corpo é considerada e respeitada. Desde quando ter um corpo que fica cansado é crime? Desde quando ter um corpo que pausa procurando ar é crime? De certo este crime não é real.

A quem fere seu corpo realmente, a quais interesses ele fere? Seu corpo torna-te culpado de algo que em nada é crime. Seu corpo é seu e obedece a um conjunto de fatores internos e externos a você (genéticos, históricos, culturais e ambientais). Você pode alterar seu corpo caso queira? Ele é seu, de certo você pode, mas antes você precisa compreendê-lo, então interpretá-lo, aceitá-lo e só depois, dentro da realidade deste corpo, apará-lo. Do crime à aceitação. Da dor pelo corpo, ao amor pelo corpo, então à paz com o corpo. Iniciei o post com os trechos em que Drummond expõe o crime de ter um corpo, finalizo abaixo com os trechos do poema "Antítese" da poeta Jenyffer Nascimento, o qual interpreto como sendo sobre a paz de aceitar esse corpo. Jenyffer é autora de obras da literatura chamada "literatura periférica", movimento literário que ganha espaço em bares, saraus, casas de culturas, entre outros espaços culturais no Brasil. Junto com vozes como a dela, nosso corpo também ganha espaço. Diante da cobrança em padronizar, ser antítese é respeitar a sua própria individualidade, é um percurso de real construção de saúde.

"Pediram um corpo escultural
 eu não tinha.
 (...)
Disseram que eu não amamentasse para o peito
não cair
Eu amamentei até cair.
Submeteram meu corpo e meu psicológico à violência
Eu me juntei a outras como eu para superar.
(...)
Exigiram fidelidade e submissão
Eu rompi por amor próprio."

(Antítese, Jenyffer Nascimento)


Fernanda Sabatini
Nutricionista











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